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EMIDIO CARVALHO

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Emidio Carvalho / Blog / Amorosamente prepotente
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06 Nov

Amorosamente prepotente

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(Ou aquilo que nem nós temos coragem de assumir acerca de um relacionamento a dois. Mesmo.)

Esperamos que o outro, a cara metade, a alma gémea, o príncipe encantado, a bela adormecida, mude a nossa vida. Torne a nossa vida mais doce, amorosa, interessante, especial, excitante.

Mas porque raio queremos que outro mude a nossa vida? Será a nossa vida assim tão desprovida de significado que é necessário outro para a mudar? E queremos que o outro mude exactamente o quê? O tédio? A solidão? O medo? A insegurança?

Estes sentimentos não desaparecem com a presença da cara-metade, apenas ficam temporariamente ocultos ou esquecidos. Iremos estar sempre atentos a qualquer sinal que indique que o/a outro já não está interessado na nossa presença. E acusá-lo/a de distanciamento ou frieza sempre que o comportamento dele ou dela não for o que nós queremos ver. Como se o outro não pudesse ter uma vida própria. A ideia é um pouco esta: agora que me encontraste irás dedicar-te a mim, fazer-me sentir importante e especial e único/a. Um inferno, senhores e senhoras.

E todos fazemos este jogo de uma forma mais ou menos subtil.

De início estamos atentos ao outro. Queremos agradar e queremos que o outro goste de nós. Fazemos tudo para estar com o outro. Oferecemos flores e sexo, comida e passeios. Tudo! Nós somos tão excepcionalmente generosos! Mas só até termos o que queremos do outro. E o que queremos do outro? Nem nós sabemos! E não sabemos porque, regra geral, ao fim de um mês ou dez anos, começamos a ficar fartos do outro. Já não é a alma gémea, é mais o diabrete ou a cabra que não nos compreende.

E sim, há excepções. Há pessoas que realmente se compreendem e respeitam mutuamente. Provavelmente cerca de um por cento dos casais são assim. Compreendem-se e respeitam-se mutuamente. Para os demais é essencial ir dentro de cada um para poder viver pacificamente lado a lado.

Em muito pouco tempo queremos que o outro viva em função das nossas necessidades. E ai do outro se tiver necessidades próprias! Neste caso dizemos que não somos a mãezinha ou o paizinho e que ele ou ela devem comportar-se como adultos que são.

Queremos que o outro se lembre de nós mil vezes ao dia e ignore qualquer pessoa minimamente interessante ou sexy (de acordo com os nossos padrões, obviamente). Queremos que o outro esteja presente quando queremos, e que diga o que queremos ouvir (e que, regra geral, nem nós sabemos o que raio queremos ouvir!). Queremos que responda às nossas mensagens amorosas (o facto de a enviarmos quando o outro está no meio de uma reunião ou a conduzir é irrelevante). Queremos ouvi-lo/a dizer que nos ama muito (mas tem que soar a sincero, o que quer que isso seja), e que nós somos a coisinha fofinha mais importante que lhes aconteceu na vida (esquecemos que o ar que respiramos é um zilião de vezes mais importante).

Queremos refeições gourmet feitas com amor e dedicação (sim, porque se a nossa cara-metade cozinhar de trombas postas, porque tem uma situação desagradável no trabalho, a refeição não poderá ser apreciada da mesma forma).

Queremos sexo, quando a nós nos apetece, obviamente. E se o outro/a está com um elevado nível de stress, cansado/a, desmotivado, doente, isso não é desculpa. Afinal, haverá algo melhor que sexo às 10.35h connosco? Claro que não!

Ah! E mesmo importante! O outro/a deverá olhar para nós com um sorriso, estar grato por estarmos na sua vida, que seria um tédio sem nós, e mostrar que nos ama continuamente (embora, mais uma vez, nós mesmos não saibamos como o pode fazer).

Se o outro está mal, obviamente que só podemos ser nós a causa do mal-estar e temos que remediar o seu estado de espírito. Iremos oferecer-lhe chocolates, flores, férias, um casaco novo, e sexo às 17.55h. E ai dele ou dela que não mude e se torne grato pela nossa existência!

E obviamente que em qualquer situação nós é que temos a razão do nosso lado! Se o outro não nos compreende só pode ser porque tem outro/a, é mentecapto, ou um egoísta que só pensa nele/a.

É completamente legítimo querermos tudo e mais alguma coisa do outro. Tudo, mesmo! Afinal, não é essa a função da nossa alma gémea? Satisfazer cada desejo, compreender cada capricho e resolver qualquer problema na nossa mais que importante vida?

Já o outro querer ver o jogo da bola ou sair com os amigos é uma total falta de respeito para connosco. É egoísmo puro e duro!

O outro/a deve gostar de tudo o que nós gostamos. Está-se mesmo a ver que se o outro não partilha do nosso gosto pelo crudivirismo e yoga eclesiástico prana-tantra transcendente nós temos obrigação de o/a educar acerca daquilo que lhe faz bem.

Em realidade o outro/a não pode ter gostos sem a nossa autorização prévia. Seria um desaforo. Onde já se viu uma alma gémea querer sentar-se no sofá a ver um filme ou novela quando há um encontro de ultra espiritualidade avançada no ginásio dos guerreiros da paz?!

E porque o outro/a não pode ter uma vida para além daquela que acontece à nossa volta, é legítimo amuarmos, fazer birra, criticar, deitar abaixo e mandar piadas de mau gosto. O outro/a tem que viver em função da nossa vida. Ponto final.

Se assim não for só podemos tomar uma atitude: ficar de olho na alma gémea. Onde é que estiveste? Com quem estiveste (e vai verificar ao Facebook só para ter a certeza)? O que estiveste a fazer entre as 18.55h que mandei a sms a dizer que te amo, e as 19.05h que respondeste um estúpido “também te amo”? O que se passa? Já não gostas de mim? Há outro/a? Podes dizer-me!

E o pobre, ou a pobre, decide dizer que anda preocupado ou sem motivação ou desgastado. E é o fim do mundo! Atiramos-lhe para cima todas as nossas razões porque não pode sentir-se assim. E porque nós estamos cá para apoiar (isto depois de o/a criticar por se recusar a ir visitar a nossa tia com Alzheimer).

E depois temos a nossa lista de perdão! Se o outro/a não viver em função da nossa vida, se por qualquer motivo não se comportar como nós queremos, terá que mostrar arrependimento e pedir o nosso perdão. E dependendo da ofensa, o pedido de desculpa deverá ser acompanhado do respectivo troféu.

Para os menos atentos, aqui vai uma pequena amostra:

-      -  Chegaste a casa e não arrumaste os almofadões do sofá. (Pede desculpa e oferece-te para lavar a loiça. E claro que iremos recusar a ajuda, afinal como poderíamos ser vítimas?);

-       - Acordas mal disposto/a? (Um ramo de flores ao fim do dia, que iremos atirar para o lado com desprezo, porque isso não chega, afinal deste cabo do meu dia!);

-      -  Não atendeste o telefonema às 9.55h. (Leva-me a jantar fora e faz-me sentir como uma princesa/príncipe, embora façamos um esforço para manter a cara amuada, porque não chega);

-       - Foste em viagem de negócios e só me telefonaste duas vezes? (obviamente que levaste a/o amante. Férias nas Caraíbas, a que iremos dizer não porque o dinheiro não chega para tudo e há que pensar nos filhos).

Qualquer relacionamento que começa a entrar em decomposição tem como motivo principal a história do eu tenho razão e tu não, a minha vida é mais importante que a tua, tu deves atender aos meus desejos e adivinhar o que eu quero, quando eu quero. Ponto final. Não se discute mais.

E depois ficamos deprimidos quando o/a outro decide afastar-se. Porque raio iria alguém afastar-se de uma pessoa tão amorosa e compreensiva como eu? Só pode ser a estupidez que lhe vai nos genes, obviamente.

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Last modified on Sexta, 06 Novembro 2015 23:46
Emidio Carvalho

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Ocupação: Educador Emocional
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